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A arte de brincar e o fanatismo


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Por  Gabriel Perissé
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Esta entrevista com o Prof. Dr. Jean Lauand (USP), autor de vários livros e artigos sobre cultura clássica e contemporânea (cfr. www.hottopos.com), focaliza a arte de brincar como o melhor antídoto contra o fanatismo, gerador de comportamentos irracionais e anti-sociais.

— Prof. Lauand, que virtude combate melhor o fanatismo?

— Aristóteles fala sobre o brincar em Ética a Nicômaco, comentado por Tomás de Aquino, e a conclusão a que chegam é que brincadeira é coisa séria. Brincando, o ser humano encontra o repouso depois de toda essa tensão a que somos submetidos diariamente. Mas brincar também é uma forma de não tornar nossas convicções um peso para nós mesmos e para os outros. Tomás afirma que o brincar é necessário para a vida humana, e insiste: a brincadeira é especialmente necessária para os intelectuais, que "desgastam" mais o espírito e precisam da "re-creação" para não se tornarem ásperos. No Brasil, os valores da convivência estão em conexão de sentido com o bom humor: alimentam-se mutuamente (ou definham juntos...). Tomás ficaria entusiasmado com um boteco do Rio (onde há mais alegria do que em toda a Suíça junta).

— A brincadeira pode degenerar em zombaria?

— É o vício por excesso. Aristóteles diz que aqueles que exageram no brincar chamam-se bomolochi, "os ladrões do templo", à semelhança das aves de rapina que voavam ao redor do templo para roubar as vísceras dos animais imolados. Quem não sabe brincar "rouba" algo e o converte em deboche, algo odioso e ofensivo.

— E os que nunca sabem brincar?

— É o vício por falta, próprio do fanático que se torna inflexível, incapaz de suportar contrariedades e surpresas. Nesse sentido, existe uma "lei empírica", a lei de Churchill: "Fanático é aquele que não muda de opinião... nem de assunto". Aristóteles e Tomás diriam que instituições e pessoas demasiadamente "sérias" não devem ser levadas a sério...

— Qual a essência da arte de brincar?

— Para os antigos, os que se comportam convenientemente no brincar são eutrapeli, segundo Tomás, "aqueles que bem convertem", pois sabem converter em riso agradável as coisas que dizem ou fazem.

— Então entre o zombeteiro e o fanático encontra-se o homem bem-humorado?

— Sim. A virtude do brincar é própria do epidéxios, ou seja, do homem bem adaptado para o convívio, equilibrado, que sabe ouvir e dizer ludicamente, livre das paixões que cegam para o bem e a verdade.

Internet:
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