| d A magia de Lygia _ |
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| Por Gabriel Perissé f |
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O mais recente livro de Lygia Fagundes Telles tem a elegância da obra madura e consolidada. Manifesta um nível de excelência, como lembrou um crítico, que por si só vale a leitura. Seu atento, seu amoroso cuidado com o idioma, sua inegável (e invejável) paixão literária, seu tom sereno e misterioso conferem a cada conto a marca dos clássicos. Invenção e memória é o título. Que à primeira vista remete a um raciocínio "moderno": a tensão entre o que é lembrado e o que é imaginado. Misturando suas lembranças de infância e juventude com os vôos da invenção, Lygia teria criado um mundo paralelo, repleto de alusões e sentidos ocultos, um mundo relativizado, ambíguo. Contudo, temos de lembrar uma outra paixão de Lygia: a etimologia. Numa entrevista, chegou a comentar que faz mesmo essa pesquisa, em busca das raízes das palavras que convoca para a sua obra. Lembrar vem do verbo latino memorare, que entre uma forma e outra foi também membrar. Lembrar é unir os membros, assim como desmembrar pode ser associado à desmemória. Quem se esquece vê tudo despedaçado, fragmentado, desconexo. Quem se lembra junta os pedaços, os membros, e monta um corpo coerente de lembranças. Essa é a primeira pista para entendermos o seu livro por um outro ângulo. Agora a etimologia de invenção. Em latim, inventio e invenire têm a ver com aquilo que aparece, com aquilo que surge aos nossos olhos no meio de outras coisas. Inventar, originariamente, não é criar, mas descobrir, ver o que já existe mas estava oculto pelo desconhecimento. Essa era a segunda pista. Os contos de Lygia Fagundes são literalmente um achado. Ao remexer a memória (quebra-cabeças), o que viveu, leu, ouviu, a autora monta e une novos sentidos que já estavam presentes. Não é preciso imaginá-los ficcionalmente. O menino (de um dos contos) que vende cartas perfumadas para todas as ocasiões e a quem a personagem-narradora resolve dizer não existe realmente, existe e vende cartas perfumadas. Ela o descobriu quando começou a escrever, a juntar palavras e imagens. Escrever é criar pontes (outra idéia-força de Lygia), entre as pessoas, mas também entre fatos. E é essa a magia de Lygia. Sua maneira de construir a vida humana. Tudo o que diz é verdade inventada. Ela só faz isso: apresenta-nos tudo. Com seu conquistado talento. Invenção e memória, Rocco, 2000, 125 páginas.
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