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Filosofia não é coisa do outro mundo
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Por  Gabriel Perissé
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Recentemente, reapareceu na lista dos mais vendidos um livro que fez sucesso no mundo inteiro na década de 90: O mundo de Sofia, escrito por um professor de filosofia norueguês, Jostein Gaarder. O sucesso deveu-se ao fato de o livro ter captado uma necessidade e uma carência modernas.

A necessidade é a de sempre: o mundo precisa de filosofia. A carência também é a de sempre: temos dificuldade para atingir níveis de abstração, de concentração e de reflexão.

Solução?

A de sempre também, mas atualizada: contar uma história.

Bem, a história é o de menos, embora seja muito bem bolada. O que nos interessa aqui, porém, é a história da filosofia que se desenrola por dentro da história da menina Sofia: surgem Demócrito, Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Spinoza, Locke, Hume, Kant, Hegel, Kierkegaard, Marx, Sartre, a ecofilosofia, fazendo-se, no final, menção à onda de irracionalismo que invadiu as livrarias: ufologia, tarô, espiritismo etc.

Sem dúvida, estamos diante de um professor de filosofia norueguês, de modo que não temos notícias de alguns pensadores espanhóis e italianos que poderiam "esquentar" um pouco a discussão. Ou a exposição, melhor dizendo.

O grande mérito do livro é popularizar conceitos filosóficos que parecem inacessíveis. Mal ou bem o leitor se familiariza com expressões como "niilismo", "lei da causalidade", "dialética", "agnosticismo", e respira um pouco o "clima" imprescindível para pensar com profundidade.

Talvez o momento mais fascinante do livro seja o início, quando se investiga o que é filosofia. O leitor descobre dentro de si um filósofo, já que pode formular perguntas. Perguntar é o melhor meio de se aproximar da sabedoria. Perguntas de caráter ontológico, metafísico, mas, também, de caráter ético. De que vale perguntar o que é viver, se não nos perguntarmos como devemos viver?

O autor esclarece que é mais fácil fazer perguntas do que respondê-las. Correto. Mas penso que hoje parece mais fácil, sim, responder de qualquer maneira (o que é não responder) perguntas pertinentes e contundentes. Respostas vagas e descompromissadas — "sei lá", "depende do ponto de vista", "no fundo tudo é válido"... — que só aumentam a distância entre nós e a realidade.

O mundo da filosofia é o nosso mundo. Que bom! Mas faço uma pergunta também: por que 20 páginas sobre Freud, que não foi propriamente um filósofo?

O mundo de Sofia, Cia. das Letras, 1999, 555 páginas.


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