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As janelas de Eduardo Galeano
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Por Gabriel Perissé
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O mais recente livro de Eduardo Galeano publicado no Brasil é a minuciosa análise de mil e uma situações de um mundo injusto e desumano. Suas denúncias são implacáveis, documentadas, marcadas por um lirismo de fundo, sustentadas pela virtude da indignação.

De pernas pro ar é um livro que fala do mundo ao avesso em que vivemos, em que sobrevivemos, e em que muitos morrem e morreram pelas mãos autoritárias, preconceituosas e orgulhosas de ditadores de todos os tipos e tamanhos.

Há neste livro, como em outras obras de Galeano, o clamor humanista: deixemos de avaliar um país, um povo, uma cultura ou uma pessoa pelo seu poder aquisitivo, pelo seu poder de barganha, pelo seu patrimônio econômico.

Galeano abre amplas janelas para delas gritar contra o colonialismo visível e invisível que mutila, que suga, que exige submissão. Bem sabe o autor que nem todo mundo quer ou, pior, nem todo mundo pode alcançar essas janelas. Nem todo mundo sabe que elas existem. Muito do que Galeano escreve é lido (e/ou ignorado) por aqueles que também ignoram suas próprias vítimas, e muitas das vítimas que Galeano defende não sabem ler ou não têm condições econômicas para comprar os livros que lutam por elas. Contudo, de algum modo essas palavras, denúncias e clamores fecundam a linguagem, aumentam o calor dos desejos utópicos, ferem a arrogância, abrem caminho para um futuro melhor.

O grande poder de Galeano está na beleza das suas frases. Ao denunciar a ganância dos especuladores, não se restringe a fornecer dados estatísticos ou apresentar balanços. Cria uma metáfora: "Sem transformar a matéria, sem tocá-la sequer, o dinheiro se reproduz mais fertilmente fazendo amor consigo mesmo."

Ver o mundo pelas janelas que Galeano nos abre é doloroso. A paisagem em chamas, inescrupulosos ditando as leis, poluição, arbitrariedades, conspiração contra os mais fracos, hipocrisia. Contudo, vê-se também um grupo de crianças, um pequeno grupo de pequenos "galeanos" que, além da fome de justiça, têm também a força da palavra para dizer ao mundo que volte a colocar os pés no chão. Como uma criança britânica a quem a BBC perguntou, numa pesquisa, se preferia a televisão ou o rádio, e essa criança, contra a unanimidade, explicou: "Gosto mais do rádio, porque pelo rádio vejo paisagens mais bonitas."

De pernas pro ar - a escola do mundo ao avesso, L&PM, 1999, 370 páginas.

E-mail: perisse@uol.com.br



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