A revolta das palavras

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Por Gabriel Perissé
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A revolta das palavras, de José Paulo Paes, foi catalogado como pertencente à literatura infantil, mas, na verdade, trata-se de uma fábula moderna escrita para todos e, sobretudo, para os adultos.

Para os adultos, que adulteramos as palavras com maior ou menor consciência de fazê-lo.

Querendo ou sem querer, usamos e abusamos das palavras, obrigando-as muitas vezes a dizer aquilo que não dizem.

Num belo dia, porém —um belo dia 2 de abril, logo depois do Dia da Mentira—, no meio das páginas do dicionário, as palavras "verdade" e "mentira" resolveram reunir todas as outras para uma discussão. Precisavam tomar uma atitude contra o mau uso que delas todas se fazia e faz.

De fato, pessoas sem escrúpulos —defendendo interesses inconfessáveis— chacoalham, seqüestram, aviltam, transtornam, manipulam as palavras. É no anúncio, no relatório, no site, no roteiro, no ensaio, acaba-se dizendo que aquele supermercado tem os melhores produtos, e não tem; que tal livro é o mais vendido, e não vende; que esse deputado é idôneo, e nunca foi... ou ao contrário: que aquela empresa não é boa, e é; que esta mulher não presta, e presta; que tal revista é mentirosa, e não é mentirosa...

Verdades e mentiras existem. As palavras são verdadeiras quando bem utilizadas. E as palavras estão no dicionário, à mercê de nossas decisões. Porque vivemos afirmando e negando coisas. Dizendo que as coisas são ou deixam de ser. Desmentindo e ratificando. Corroborando e argumentando. Mas quem admite mentir? Quem diz que nunca mente está mentindo de novo.

As palavras se revoltaram, recusando-se a aparecer em contextos errados.

Realmente, é revoltante ver no lugar da palavra "nunca" a palavra "eternamente". No lugar da palavra "não" a palavra "sim" (e vice-versa). No lugar da palavra "ódio" a palavra "amor".

Temos, portanto, de verificar sempre o que lemos, ouvimos, e também o que falamos e escrevemos.

Como no caso daquela viúva, cujo marido não era propriamente um cumpridor dos seus deveres. Batia nela e nos filhos, embriagava-se, sequer procurava emprego. Até que um dia morreu. E, no velório, entrou um amigo do defunto. E começou a discursar, elogiando o "marido exemplar", o "cidadão impecável", o "trabalhador infatigável"... Virando-se para o filho mais velho, a viúva cochichou: "Filho, vai ver se é o teu pai mesmo que está lá no caixão."

A revolta das palavras, Companhia das Letrinhas, 1999, 27 páginas.

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