A pornografia moralista segundo João Ubaldo Ribeiro __
|
|
O último livro de João Ubaldo Ribeiro está entre os mais vendidos atualmente. Talvez muitos o leiam por se tratar de um livro em que uma suposta senhora de 68 anos conta com detalhes sua vida sexual obsessiva, ilimitada, incestuosa, de que tio, irmão, homens e mulheres, padres, freiras, jovens e velhos participaram. Uma orgia contínua, desenfreada, inverossímil. São leitores interessados talvez em cenas picantes e vocabulário obsceno. Só isso. Talvez outros tantos o leiam por motivos nobres. Querem acompanhar a trajetória de um autor que escreve bem e de fato o livro está muito bem escrito. Trata-se de um livro pornográfico no sentido mais puro da palavra. Escrito com classe. Com profissionalismo. Pode chocar, mas não tanto pela pornografia em si, embora seja pesada. Fica-se chocado com a pornografia moralista da personagem. Uma revelação psicológica muito sutil, que João Ubaldo Ribeiro faz nas entrelinhas, sem alarde. O nosso hábito de sussurrar "moralistas", "dogmáticos", "intolerantes" ao ouvir os que pregam contra determinados comportamentos sexuais nos impede de ver o moralismo dos que fazem do sexo um deus a quem devemos entregar e sacrificar tudo: tempo, dinheiro, consciência, compromissos, tudo. A luxúria é, na verdade, extremamente dogmática e intolerante. Ao longo do seu relato, a personagem vai como que enlouquecendo, e teorizando, palestrando, criando verdadeiros dogmas, agredindo quem considera atrasado e ignorante. Um dos seus dogmas: "Todo homem é veado, em maior ou menor grau, e toda mulher é lésbica, em maior ou menor grau." Uma de suas teorias arbitrárias: "Câncer é a doença do reprimido, da libido encarcerada, da falsidade extrema em relação à própria natureza." Uma de suas frases intolerantes: "Acho burro ou mentiroso quem se escandaliza com eu ter comido meu irmão e meu tio, para não falar em primos, cunhados e quejandos." A personagem, de quem só sabemos as iniciais, C.L.B., sempre teve dinheiro e... pavor de ter filhos. Mais tarde, descobriu ser estéril. Ou será que a esterilidade, no seu caso, era uma doença provocada pelo amor reprimido? A pornografia moralista odeia os heterossexuais, os maridos fiéis e as mulheres grávidas. Vê hipocrisia em tudo isso. E, sobretudo, não vê o outro. Não fala da aids, nem sofre com a dor de quem quer que seja. Vê e procura apenas o seu orgasmo. O que é totalmente lógico. A casa dos budas ditosos, Objetiva, 1999, 163 páginas. E-mail: perisse@uol.com.br ______ |
|
Copyright © 1999 Correio da Cidadania - Todos os direitos reservados |