A jornada do escritor
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Por Gabriel Perissé
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A leitura diária revela a existência de estruturas narrativas que, sem destruir a originalidade dos contadores de histórias, permanecem as mesmas no fundo de todos os relatos, e lhes dão interesse universal.

Sempre existe um herói tentando vencer dificuldades externas ou internas para crescer, ou para ajudar um povo, ou para salvar um planeta, ou para descobrir uma saída científica, ou para conquistar um amor impossível, ou para restabelecer a justiça. E todos nós acabamos por identificar-nos com o herói.

Sempre existe um mentor, uma pessoa que orienta o herói. Será um professor, ou a própria consciência do herói, ou uma deusa, ou um livro, ou um guia místico, ou um mordomo, ou um oráculo, ou um computador. E todos acabamos por aprender a seguir nossos próprios mentores.

Sempre existe um arauto, aquele que chama o herói para entrar logo na aventura. Pode ser um mensageiro que atravessou o deserto, pode ser uma carta dentro da garrafa, pode ser um amigo que está morrendo e, entre dores, revela o nome de alguém, pode ser a gravação que se auto-destruirá em cinco segundos, pode ser o cachorro da vítima que vem latindo, pode ser uma notícia de jornal, pode ser um telefonema anônimo. E todos acabamos por compreender melhor os chamados que vêm ao nosso encontro no dia-a-dia.

Sempre existe uma caverna escura em que o herói encontrará o antagonista, ou o tesouro em poder dos ladrões, ou a amada aprisionada pelo dragão, ou o elixir enterrado na areia movediça, ou a senha que abre os portões, ou o enigma que é preciso decifrar. E todos acabamos por ter vontade de encontrar essa caverna.

Essa é, em poucas palavras, a tese de Christopher Vogler em A jornada do escritor, que se tornou uma bíblia entre os roteiristas de Hollywood, e explica, por exemplo, o sucesso de uma Guerra nas Estrelas e de um Rambo.

Baseado nas pesquisas de Joseph Campbell, o autor conseguiu alinhavar os arquétipos que habitam nosso inconsciente literário. No fundo, temos o desejo infantil de pedir que repitam aquele trecho em que o herói pula do alto do penhasco porque os inimigos vêm atrás e não há outra saída. Por que será?

Eis um roteiro interessante para o escritor encaminhar sua criatividade.

E também para os heróis do cotidiano que somos todos nós.

A jornada do escritor, Ampersand, 1997, 360 páginas.
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