| As trevas da Idade Mídia |
Por Gabriel Perissé |
Era comum que o filósofo espanhol Ortega y Gasset escrevesse ou falasse usando a frase "é urgente que"... Sentia ele a urgência de pensar e de fazer pensar. E de enseñar, no sentido genuíno da palavra: mostrar, fazer ver. É urgente tomarmos consciência de que pertencemos à Idade Mídia. Um tempo em que, para se obter visibilidade, é necessário aparecer nos jornais e revistas, falar no rádio, surgir na televisão (e seus multicanais), plugar-se na Internet, responder aos e-mails, carregar na cintura o pager de um lado e o celular de outro, pilotar o fax (no trabalho e, se possível, em casa também), ter um telefone comercial (no mínimo), o residencial (claro), e secretária eletrônica ligada nos dois, sem falar de um motoboy à mão, que vá costurando em alta velocidade pelo trânsito intransitável e leve a mensagem ainda quente ao destinatário inquieto. É urgente percebermos que a este ponto chegamos: um excesso (maravilhoso!) de meios de comunicação, a possibilidade de receber notícias de minuto a minuto, de entrar em contato com milhares de pessoas ao mesmo tempo. Melhor é impossível! É urgente darmo-nos conta de que podemos falar com todo mundo. E é urgente perguntar-nos: "O que temos para dizer a todo mundo?" As trevas da Idade Mídia são as trevas do nosso vazio comunicativo. Fala-se muito e diz-se pouco. Transmite-se muito e orienta-se pouco. Informa-se muito e ensina-se pouco. Nada de catastrofismos, mas basta entrar num desses chats chatos da Internet para sentir que não se tem muito a conversar. Basta ligar a TV para ouvir ratinhos e leões, louras e muvucas, pagodes e pacotes, gugus e xuxas disputando nossa falta do que fazer. Basta entrar numa livraria para sentir-se necessitado de ajuda e ter como única saída a auto-ajuda. "Numa sociedade que começa a corromper-se", dizia Octavio Paz, "a primeira coisa que apodrece é a linguagem". E, com efeito, tendo ao alcance todos os rapidíssimos e amplíssimos instrumentos de comunicação, nem sempre dispomos da palavra certa, da palavra contundente, da palavra coerente e, sobretudo, da palavra verdadeira. No horário político, nos púlpitos esotéricos, no telejornal assintático, nas revistas super-superficiais, na telenovela que sai de baixo ouvimos tanto, e de tanto tão pouco fica. Mas dentro da Idade Mídia existe um Renascimento que, como sempre, já nasceu antes mesmo do fim da era que, mal ou bem, o gerou. Um renascimento da palavra que é urgente também perceber. Perceber e propiciar. (perisse@uol.com.br) |
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